Mais de 400 famílias em situação de vulnerabilidade, residentes na localidade de Djodjo, posto administrativo de Urene, a mais de 50 quilómetros da vila-sede do distrito de Panda, na província de Inhambane, beneficiaram, na semana finda, da terceira e última fase de distribuição de produtos alimentares de primeira necessidade.
A iniciativa, promovida pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) em parceria com a Cruz Vermelha de Moçambique (CVM), insere-se no âmbito da resposta à seca 2023-2024.
A localidade de Djodjo, situada a cerca de 10 quilómetros do posto administrativo de Urene, tem uma população estimada em mais de cinco mil habitantes, maioritariamente dedicada à criação de gado bovino e caprino, bem como à agricultura. Contudo, sobrevive-se ali apenas com um “estômago resiliente” e espírito capaz de suportar a fome, a seca e o isolamento.
Apesar de possuir alguns serviços sociais básicos – como água, energia eléctrica, uma unidade sanitária e rede de telefonia móvel –, Djodjo continua a ser uma zona de difícil habitabilidade. A falta de vias de acesso adequadas é um dos principais entraves à mobilidade da população, que precisa de percorrer cerca de 8 km a pé até Urene, para depois apanhar transporte semi-colectivo rumo à vila-sede. Uma rotina penosa que compromete os planos e o sustento de muitas famílias. A maior preocupação, porém, é a seca extrema. A escassez de chuvas devastou as culturas agrícolas, agravando a insegurança alimentar. Para sobreviver, algumas famílias vendem os poucos animais que lhes restam; outras recorrem a biscates e deslocam-se à vila-sede para comprar mantimentos, ainda que em quantidades insuficientes.
Diante deste cenário alarmante, o governo provincial de Inhambane, através do INGD, mobilizou a Cruz Vermelha de Moçambique, que respondeu com o envio de produtos alimentares de primeira necessidade. Segundo dados do levantamento feito pelas autoridades, mais de 400 famílias foram identificadas como directamente afectadas pela seca, tendo recebido, na semana passada, a terceira e última fase de apoio alimentar. Cada agregado beneficiou de um saco de 50 kg de farinha de milho, 5 litros de óleo alimentar, 3 kg de açúcar, 10 kg de feijão manteiga, entre outros produtos.
Nos rostos dos beneficiários, era visível o alívio. Para muitos, esta ajuda representa a garantia de alimentação durante o mês de Junho, enquanto procuram alternativas sustentáveis para o futuro.
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Helena Matsinhe, de 72 anos, viúva e responsável por cinco netos menores, é uma das beneficiárias da ajuda. Conta que a situação era dramática antes da intervenção, com dias em que a fome quase a levava ao desespero.
“Estávamos com muita fome. Nada resultou das nossas machambas. Produzi hortícolas e milho, mas tudo secou. Os meus netos dormiam sem comer, e eu nem sabia onde arranjar comida. Este apoio vai, pelo menos, minimizar o nosso sofrimento.”
Também Marta Damião foi contemplada com o apoio. Viu as suas machambas serem destruídas pela seca e, sem alternativas, passou a vender galinhas cafreais para comprar comida. Quando os recursos se esgotaram, enfrentou dias de fome com a família.
“Aqui está-se muito mal. Tentamos cultivar, mas não chove, e os rios secam. Sem água para irrigar, tudo morre. Agradecemos muito essa ajuda e gostaríamos que o apoio fosse prolongado.”
O INGD, por seu turno, agradeceu à Cruz Vermelha de Moçambique por ter abraçado a causa humanitária. Segundo o delegado provincial, Gilberto de Castro Miguel, esta foi a última fase de distribuição no âmbito da resposta à seca. Miguel apelou às famílias beneficiárias para que não fiquem de braços cruzados à espera de ajuda do Estado, mas busquem alternativas de subsistência.
Além de Panda, a iniciativa abrange igualmente os distritos de Funhalouro e Mabote (na região de Mahuzulukane), que enfrentam problemas similares causados pela seca.
Neste contexto, os profissionais de Água e Avaliação de Impacto Ambiental nacionais são chamados a trabalhar com as suas congéneres de Cabo Verde, Brasil e Portugal para juntos mitigarem os impactos dos eventos extremos.
O Governo defende que a partilha do conhecimento e reforço do compromisso sobre a gestão sustentável dos recursos hídricos e zonas costeiras dos países de língua oficial portuguesa são vitais para o futuro do planeta, Continente Africano e da região austral.
Espera-se que a partilha de conhecimento impulsione o desenvolvimento sustentável do sector de Águas dos países-membros, tornando-os mais adaptados a esta nova realidade sem fronteiras.
FONTE: Jornal DOSSIERS & FACTOS (2025, 02 de Junho, Pág.19)
